Helena tinha 17 anos quando se apaixonou pela primeira vez. Havia planos, conversas sobre o futuro e aquela certeza tranquila de que seria para a vida toda. Um dia, sem que ela estivesse preparada, o namoro acabou.
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Escute a versão narrada de “O amor que acabou, mas não foi embora: por que algumas histórias continuam doendo”.
Nos anos seguintes, Helena conheceu outras pessoas, começou outros relacionamentos e quis muito construir uma família. Só que, em algum momento, era sempre ela quem encontrava um motivo para terminar. Demorou para perceber que comparava cada novo começo com aquele primeiro amor.
Muita gente se reconhece nessa história. A vida segue, outras pessoas chegam e, mesmo assim, uma parte continua presa a alguém que já foi embora.
Quando o fim chega antes de a gente estar pronto
Terminar um relacionamento que a gente ainda queria continuar dói, e a ciência leva essa dor a sério. Em um estudo publicado em 2011 na revista PNAS, o psicólogo Ethan Kross e colegas examinaram, com ressonância magnética funcional, pessoas que tinham passado havia pouco tempo por um término que não queriam. Enquanto elas olhavam a foto de quem tinha ido embora e pensavam na rejeição, o exame registrava atividade em áreas do cérebro também envolvidas na percepção da dor física. Para os pesquisadores, rejeição e dor física compartilham parte da mesma representação no cérebro.
Na maioria das vezes, essa dor perde força com o tempo. Os psicólogos David Sbarra e Robert Emery pediram a pessoas que tinham acabado de terminar um namoro que registrassem, dia após dia, o que sentiam. O amor por quem tinha ido embora diminuía de forma gradual, como eles relataram em 2005 na revista Personal Relationships.
Mas há quem veja os anos passarem sem que essa história perca força. Para entender esses casos, vale conhecer a leitura da Terapia de Reprocessamento Generativo (TRG). Desenvolvida pelo professor Jair Soares, a TRG é uma metodologia terapêutica que propõe o reprocessamento de experiências emocionais que podem continuar influenciando a maneira como sentimos, pensamos e reagimos no presente.
Por que algumas lembranças continuam doendo tantos anos depois?
Um dos fundamentos da metodologia é a ideia de que o inconsciente funciona de maneira atemporal. Nessa perspectiva, algumas experiências emocionalmente marcantes podem continuar provocando reações intensas mesmo depois de muitos anos, como se aquela situação ainda estivesse presente.
No caso de Helena, isso ajuda a entender por que o tempo não fez o trabalho que se esperava dele. Ela cresceu, trabalhou e conheceu outras pessoas, mas a dor daquele término continuava parecida com a que sentiu aos 17 anos.
A mesma ideia se estende ao futuro. Nessa leitura, uma experiência que não foi resolvida também influencia o que a pessoa espera daqui para frente: os planos, as expectativas, aquilo que acredita ser possível. Depois de uma despedida mal resolvida, há quem passe a esperar, sem perceber, que toda história termine do mesmo jeito.
Algumas experiências não ficam no passado só porque o tempo passou.
Quando uma história antiga começa a interferir nas novas
O conceito que mais ajuda a entender casos como o de Helena é a compulsão à repetição, que a metodologia também chama de looping.
O raciocínio é este. Diante de uma experiência difícil, a mente tenta digerir o que aconteceu, tirar dali algum aprendizado e seguir em frente. Quando consegue, a lembrança deixa de pesar. Quando não consegue, volta ao assunto. Às vezes em pensamento, revivendo a mesma cena muitas vezes. Às vezes na prática, levando a pessoa a situações parecidas com a original.
Dá para comparar com uma disciplina em que alguém foi reprovado na faculdade: enquanto não aprende o conteúdo, precisa cursá-la de novo. A repetição, nessa leitura, não é castigo. É a insistência da mente em resolver algo que ficou pendente.
Vista por esse ângulo, a trajetória de Helena ganha outra leitura possível. Encerrar relacionamentos antes que eles pudessem dar certo pode ter tido menos a ver com falta de vontade de ser feliz e mais com uma história antiga ainda em aberto, mantida viva pela comparação com o primeiro amor. A mesma lógica é usada para pensar por que algumas pessoas se envolvem repetidamente com quem não está disponível, ou sempre com o mesmo tipo de pessoa: experiências anteriores podem pesar nas escolhas afetivas mais do que parece.
A ciência, por sua vez, tem um nome para a sensação de esperar por quem já se foi: perda ambígua. O conceito foi criado pela pesquisadora Pauline Boss para descrever perdas em que alguém está fisicamente ausente, mas continua psicologicamente presente. O divórcio aparece entre os exemplos mais comuns.
O reencontro que reabriu a mesma história
Décadas depois, Helena e o primeiro amor se reencontraram. Parecia a chance de viver o que não tinha sido possível na juventude. Não foi. A relação terminou de novo, e ela conta que foi como viver aquela primeira despedida outra vez.
Pela lógica do looping, esse reencontro aparece como mais uma tentativa de resolver a história antiga, que acabou repetindo a mesma perda. O estudo de Sbarra e Emery aponta em uma direção parecida: manter contato com quem foi embora estava associado a uma queda mais lenta do amor e da tristeza.
Foi nesse momento que uma amiga falou da TRG para Helena. Ela resistiu no começo. Tinha convivido tanto tempo com aqueles sentimentos que não conseguia imaginar a vida sem eles.
O que muda quando uma experiência é reprocessada
Se o looping é a mente voltando ao assunto para tentar resolvê-lo, o reprocessamento propõe fazer esse trabalho de forma direta, com acompanhamento e em um ambiente controlado. Em vez de esperar que a vida repita a situação, a experiência que ficou pendente é retomada na terapia para que sua carga emocional possa ser trabalhada.
Essa expressão, carga emocional, é o centro da proposta. Na perspectiva da metodologia, o que mantém o sofrimento não é a lembrança em si, mas o peso emocional associado a ela. O inconsciente tende a colocar no topo da pilha aquilo que machucou, e por isso certas memórias aparecem primeiro e chegam acompanhadas da mesma angústia de antes. Reprocessar é retirar esse peso.
Um exemplo ajuda a visualizar: imagine alguém que passou anos em um trabalho estressante, atendendo vários telefones ao mesmo tempo, sob pressão. Com o tempo, o simples toque de um telefone passa a provocar tensão. Depois do reprocessamento, a proposta é que o telefone deixe de ser um objeto carregado de emoção e volte a ser só um telefone.
É aí que aparece a diferença entre lembrar e continuar reagindo. A pessoa sabe o que aconteceu e pode falar sobre isso, mas a lembrança deixa de disparar a mesma reação. E, na lógica da metodologia, quando a experiência perde a carga emocional, a mente já não precisa voltar a ela para tentar resolvê-la. O looping deixa de ser necessário.
Os procedimentos ficam a cargo de terapeutas preparados para isso e não cabem em um artigo.
A experiência de quem viveu
Helena começou o acompanhamento e, ao longo do processo, trabalhou as emoções ligadas àquela história. Quando fala sobre o que mudou, deixa claro que não se tratou de esquecer.
"Não foi sobre esquecer o que aconteceu ou fingir que aquele relacionamento nunca existiu. Foi sobre conseguir olhar para aquelas lembranças de uma maneira diferente." Fonte: Helena (nome fictício).
Hoje ela pensa nele sem o apego que a acompanhou por tanto tempo, consegue lembrar do que viveu sem sentir que precisa voltar àquela história e percebe que ainda tem uma vida inteira pela frente.
Quem sofre por um amor antigo costuma querer esquecer. A história de Helena sugere uma pergunta diferente: por que algo que acabou continua interferindo tanto no presente. A ciência mostra que a dor de um término é real e que, para a maioria das pessoas, ela diminui com o tempo. A TRG oferece uma explicação para os casos em que isso não acontece e propõe um caminho para trabalhar o que ficou pendente. Helena resume a mudança em uma frase.
"Aquele amor fez parte da minha história, mas já não precisa decidir o que acontece daqui para frente." Fonte: Helena (nome fictício).
Se essa história conversa com a sua. Quando um amor antigo ainda pesa nas escolhas de hoje, conversar com um terapeuta TRG pode ajudar a entender o que ficou pendente. No TRG Club, você encontra esses profissionais e decide, no seu tempo, se quer dar esse passo. Acesse: trgclub.com
Nota editorial: o nome utilizado é fictício, e alguns detalhes secundários foram omitidos ou generalizados para proteger a identidade da pessoa retratada.
Referências
Referências científicas
BOSS, P. Ambiguous loss: learning to live with unresolved grief. Cambridge, MA: Harvard University Press, 1999.
KROSS, E.; BERMAN, M. G.; MISCHEL, W.; SMITH, E. E.; WAGER, T. D. Social rejection shares somatosensory representations with physical pain. Proceedings of the National Academy of Sciences, v. 108, n. 15, p. 6270-6275, 2011.
SBARRA, D. A.; EMERY, R. E. The emotional sequelae of nonmarital relationship dissolution: analysis of change and intraindividual variability over time. Personal Relationships, v. 12, n. 2, p. 213-232, 2005.
Materiais sobre a TRG
INSTITUTO BRASILEIRO DE FORMAÇÃO DE TERAPEUTAS (IBFT). Área Científica. Publicações, resumos de congressos e estudos sobre a Terapia de Reprocessamento Generativo.
